O discurso de um cobarde
8 Janeiro 2008

O tempo do fado disse-me adeus antes que o visse ir embora, assim como um momento, dado algures no passado, que a memória já deitou
fora.
Só ficou uma pestana no chão. O resto, a brevidade do mundo arrastou pelo vento.
Não é fatalismo, é a verdade - quieta, estagnada - divisível e apressada que passa egoísta sem dar mãos à vista nem molas ao coração.
Nas mãos em concha guardo o-mar-do-que-já-fui. Mas de que me vale um mergulho salgado?
Se o meu corpo permanecer calado e morto, talvez não sofra mais pelas memórias que tenho, e pelas que já perdi.
Sou uma cobarde agri-doce. (Ou antes fosse!)
- Sobe para cima da vida e levanta a cabeça!
Repete-o amanhã também, antes que me esqueça.
A Comum
8 Janeiro 2008
«Cu-cu!» disse, enquanto desabotoava os botões de marfim da camisa azul.«Gostas de mim?» Mas não respondi. Fiquei deitado na cama, às escuras, enquanto uma luz dissolvida desvendava o seu andar. «Cu-cu!» Inspirei o perfume apertado do seu pescoço.
- Gostas de mim? – insistiu, cobrindo a cara com os dedos.
Mas antes que pudesse responder, a madrugada chegou. E ela estava morta. Enroscado no lençol, jazia o seu corpo vazio, ainda com os dedos finos a cobrir-lhe o antigo rosto. “Gostas do meu corpo?” – ecoou insistente o meu pensamento. Era real. Ela estava morta.
Analizei a sua pele ao milímetro. Nem uma marca se adivinhava. Os seus seios, o seu ventre, os seus pés – tudo continuava exactamente no mesmo lugar, mantendo a mesma graça e doçura da noite anterior. Inspirei o seu perfume de boca aberta. Ainda pairava na atmosfera à sua volta – e, no entanto, aquele já não era o perfume dela. Agora, era o perfume do cadáver – vazio e sem nome. Eraoutro perfume.
Tortuosamente, carreguei-a até à mala do carro. Enrolei o seu lenço de seda à volta do meu pescoço, e a sua presença era tão forte – talvez mais forte ainda do que quando era viva – que senti o meu corpo atravessar a parede infinita do tempo. Ela não era ninguém, nem quando existia, nem agora. Ninguém sabia da sua existência física, da nossa vida em conjunto. Era solitária. Ninguém sentiria a sua falta – nem mesmo eu.
E no entanto, apercebia-me que sem a sua presença, eu não fazia sentido. «Cu-cu!», repetiu o meu cérebro.
Pelo menos, não terás de sofrer mais, minha amiga – pensei, enquanto arrancava o carro. Porque essa era a única coisa que sabia de concreto sobre ela. Que sofria. Era como uma esponja velha que absorvia todas as lágrimas, mas cuja humidade impedia de secar. Cada vez mais pesada, cada vez maior. Mas sempre, sempre com um sorriso-espartilho no rosto.
Não ia deixar, no entanto, que alterassem o rumo da minha vida. O destino da existência humana. Pode ser cruel, mas é a minha maneira de ver as coisas. É a sociedade, é o sistema! Não podia fazer nada por ela, estava longe. O seu cadáver era só o invólcruo dispensável da existência.
Enterrei-a longe, tão longe de mim quanto possível. Fora da minha imaginação. O caminho para o lugar era demasiado íngreme e irregular. Mas não importava, só queria esquecer aquele pesadelo e voltar à minha vida – ao que o destino escolheu para os homens.
“Gostas do mim?” sussurrou a terra granulada, como uma brisa baixa nos meus tornozelos.
“Gostas de mim?” repetiu, do fundo da sepultura improvisada.
Acendi as luzes do carro e ajustei o banco ao tamanho certo. Relativamente, toda a gente morre. As ideias também. E foi assim que morreu a minha abstractividade.
A partir daí, toda a gente sabe. Respira-se, come-se, reproduz-se e morre. E nos entretantos… bom, quem é que se importa com as ideias que morrem?
Frases soltas e lágrimas
4 Janeiro 2008
Os comprimidos pingam-lhe na mão.
Sorve-os numa inspiração só. E não sofre.
A não ser quando sofre.
E não chora. A não ser quando quer chorar e não consegue,
E depois chora porque as lágrimas só saem pelas razões erradas.
Ela fá-los deslizar pela língua para não sofrer. E sofre, mas não chora. A não ser quando chora.
Já ele, ele afunda-os no fundo da garganta, atrás das rugosidades do esófago.
E depois não sofre. E quando não sofre canta, e dança. E depois sofre. Só não sabe é porquê.
E chora. E quando chora, chora mais alto porque chora, do que porque sofre.
Não queria sofrer. Não queria chorar, não queria sentir.
Não queria sentir. Mas o que é a vida sem uma lágrima?