Liberdade

19 Fevereiro 2008

O chão húmido e lacrimoso potenciou a queda:

Tropeçaste numa conta de metal.

(E ela fez um colar de pérolas.)

Na toalha molhada, descobriu as tuas barbatanas.

E pelos teus tentáculos deglutiu palavras insanas

(sussurradas)

Mergulhou nos teus olhos tristes e pintou aquarelas doiradas.

Mas do cume do teu vulcão, o silêncio em que existes

absolvia a pouco e pouco os traços abruptos com que te escrevia.

E ela dizia: “São as palavras que fazem as coisas.”

Mas eu deixei de existir – murmuravas.

“Morre.”E as pérolas correram pelos ladrilhos.

(mas desta vez são lágrimas)

Clarão

19 Fevereiro 2008

O ar ama os homens. O ar sempre amou os homens. Mas principalmente, o ar tem sede de cabelos ao vento.
Está farto de pronomes, das canções e do cheiro inebriante do suor.

Já esgotou as correias dos sentimentos, os glóbulos dormentes das cabeças humanas, as explicações virtuosas para o sexo.
O ar anseia, frenético, por alguém que se sente debaixo da chuva e espere que a vida passe: que se deite nu no chão e descubra o relevo do céu! Um único ser racional (como se auto-proclamam), que não morra com os dois pés reencarnando em movimentos inúteis, como uma folha que luta contra o vento e se mantém sempre no mesmo lugar. Até que se quebra em vão.
O ar está farto desta raça mestiça que corre atrás da vida para se encontrar sempre morta. Ainda se lembra de quando os sentimentos levantavam pêlos atrás do pescoço, e de quando as cabeças ondulavam com a maré.
Ele grita por sensações assassinas da sensibilidade, e da violência das gotas de chuva dentro das orelhas.
Mas quem se lembra disso? Os homens só se lembram da morte. Na nossa cabeça pulsa tudo o que há para fazer antes disso.
O romântico banho de chuva, como nos apressaremos a catalogar, fica para mais logo. Quando sentirmos as gotas a deslizar entre as frechas do nosso caixão.
E ao longe, os relâmpagos.

Sangra

11 Fevereiro 2008

Se soubesses o quanto o dói, não dizias isso.

Pardal

10 Fevereiro 2008

O olhar do pardal era pertinentemente roubado por aquele sonho, que costumava pairar ligeiramente acima dos mamilos das mulheres com quem dormia. Acontecia também nascer nos lóbulos das orelhas pálidas das meninas que, despidas de pudor e torneadas com uma ligeira penugem, se despiam nos seus lençóis. Não passava de um traço a tinta permanente que cortava a realidade como se esta fosse uma folha de papel. No início. Depois, à medida que ia estendendo o seu comprimento, pequenas veias difusas ramificavam-se do risco principal: como se os veios da realidade esponjosa absorvessem o químico colorido até que a realidade não era mais do que um borrão arroxeado. Nesta altura, ainda ouvia a respiração ofegante das mulheres, e sentia dentro das suas mãos as suas formas inchadas pelo calor. Mas pouco a pouco, tudo se tornava uma mancha auditiva, um vazio que pressionava os ouvidos contra o cérebro.

Nas bocas e nas peúgas das velhas, que penduravam roupa e rugas na rua, corriam boatos assustadores sobre as intenções do homem para com as doçuras da aldeia. Toda a gente comentava a voracidade com que amassava, uma a uma, as tranças alinhadas das meninas casadoiras. E no fundo, as suas línguas afiadas pelo tempo não falavam tão mal como cuspiam ciúmes. Porque o que se sabia, mas não se falava, é que os lençóis do pardal tinham algo que fazia sorrir aquelas que neles se contorciam. Não sorrisos inocentes de jovens iludidas, mas sorrisos genuínos, aos quais as velhas tinham sido escrupulosamente impedidas de alcançar no leito matrimonial e fora dele. E mais, só sabia o padre, que todas as quartas-feiras, logo pela manhã, tinha sempre uma nova jovem desejosa de ser perdoada pelos pecados escabrosos que pardal lhe tinha incutido.

A sua cabeça tornava-se então pesada, mas como se não houvesse gravidade. Balançava apoiada no seu pescoço, como se boiasse, e os ouvidos entupidos confrangiam-se com mais força. Mas sorria, porque sabia o que viria a seguir. À sua frente materializava-se o mais belo desenho que o homem já vira, novo e renovado a cada visão. Era uma visão tão pura e espontânea que uma lágrima enchia até metade o olhar pesado de pardal, deslizando disfarçada por entre as gotas de suor. Era a própria visão do amor.

- Por trás deste forro real, existe uma imagem que é tudo – sussurrou baixinho pardal. A rapariga, entretida com um caracol de cabelo, não escutou. Assim que a imagem se fundiu com as suas feições infantis, o homem caiu na almofada, exausto, e dormiu até a casa estar novamente vazia.

Bandeira amarela

5 Fevereiro 2008

É como se fosse algodão doce a derreter na tua saliva. Mas não é doce, e derrete-se dentro da minha cabeça. Dissolve-se até que só resta uma cápsula vazia, onde permanecem secos grãos de ideias que um dia alguém desejou. Esse alguém era eu, eu, a minha consciência. Eu, o rei do universo. Agora, sou só um grão também. Fora e dentro de mim, o mundo dissolve-se. Não é como as nuvens que não se tocam, não tem uma humidade viva, tem a aspereza do fumo contra as nossas guelras! Salva-me, cura-me… Se te curar a ti, achas que consegues?

Iço a bandeira amarela porque a tempestade já amainou, mas algo está errado. Não há nada aqui em que possas mergulhar. E se te aproximas, ainda te afundas no vazio que passeia os dedos nus pelas minhas costas.

Contradança

4 Fevereiro 2008

Vendeste-me o teu corpo como quem não tem nada a ganhar. Aceitaste, voluntariamente, a nota que estendia na tua direcção: porque é rude e abrupto recusar o sexo de uma mulher que o dispõe lascivamente na direcção de um homem. Estendeste-te em mil formas e deformaste-te em prazer para concretizar o que tem de ser concretizado: o que é será, e foi: vendeste o teu corpo nos lençóis poluídos da minha exigência por um preço barato no amor.
E para mim isso foi suficiente. A exaustão dos poros dilacerava o que a escuridão do dia queria impingir na minha face. O Rubor do cansaço e do amor entre-câmbio reduziu-me a um grão a voar ao vento. Mas não a ti. A ti agrafou-te ao chão, prendeu-te ao cimento das escadas, ao alcatrão da calçada. E foi assim que nos tornámos amantes. Continuaste a vender o teu amor como uma droga às doses, mas eu não me viciava. Pelo contrário, saciavas-me e não tinha o mínimo desejo de te ver enquanto o sol iluminava as persianas fechadas.
Vendeste-me o tem corpo como quem não tem nada a ganhar, e continuas a vendê-lo, agora: mas impregnado da tua consciência, do sal dos teus glóbulos oculares que te seca em transes balançados, vagas que te encerram em ti mesmo mas que te abrem para mim. É isso que vendes agora, junto com o teu suor e o teu cheiro. Vendes-te a ti. E agora sim, estou viciada.