Barulho
16 Abril 2008
Os tambores da cidade rufam no silêncio e não me deixam dormir.
Ok, vou ser honesta, não são os tambores: é o escuro. O que transforma a vasta paisagem do meu quarto num quadro (mal engendrado) cinzento. O escuro até realça as coisas vivas. Mas aqui só estou eu, e mesmo o meu reflexo no espelho é uma sombra desprovida de vida e cor e assim desprovida da sua semelhança a mim, é mais uma assombração que outra coisa.
Os tambores do escuro rufam no silêncio e não me deixam dormir.
Os do demónio
12 Abril 2008
Já não se fazer ouvir os gritos, gemidos e murmúrios nos corredores húmidos da prisão.
Digamos que a ferrugem… aqueceu as barras, as jaulas e as caras irregulares. Entorpeceu os cadeados e com eles as caras.
São animais, mas já não respiram. Rebaixam os olhos, quietos e silenciosos, abstraídos até da sua resignação. Levantam as pupilas ao chão e fitam os joelhos.
Já não há espaço para os prisioneiros no mundo. Já não há espaço para os loucos na dimensão das coisas. E no entanto, os seus fragmentos divisíveis e incoerentes são a presença que mais dói na vida de tanta gente. Carnes vazias que repelem o que mais precisam. Amor.
Será impossível amar os muros da prisão? E se fosse possível, seria um amor ilusório, ainda mais do que esta melancolia?
Quando chegar ao termo do contracto, quando o céu desabar sobre as nossas cabeças, seremos melhores.
Entretanto, sentamo-nos e esperamos.
Não é nada
11 Abril 2008
(pelo contrário, é muita coisa)
Sobre os olhares turvados pelo álcool canibalizei a tua existência. Sorvi o óleo que inspirava os teus movimentos e devorei numa dentada a tua aura de farinha. No chão sobraram um par de migalhas – não por muito tempo, adivinham as asas dos pombos. Era de noite.
Que cenário tão terrivelmente burlesco, tão antipaticamente melancólico: nós os dois, deitados na cama, eu de barriga cheia e tu de olhos vazios. Vazios de quê? – Perguntaram-me os movimentos das tuas pálpebras – Que vazio é esse que cai como neve nos teus gestos animados, que disseca todos os teus movimentos numa mistela venenosa? Porquê que entre nós se distende um nada pensante, e porquê que as palavras ausentes sambam nos nossos cérebros mas não nas nossas línguas? – Se as tuas pálpebras falassem, será que eu compreendia? Ou nasceriam dos seus versos apenas mais discórdias, mais incompreensão?
As lascas de mal-entendidos quebradas em silêncio são menores do que as paredes que as palavras erguem. O espaço que elas conquistam, perfumando com o seu odor ácido as nossas peles, impõe-se como uma necessidade, dizem-me. Talvez o espaço entre mim e ti não seja tão grande como o espaço entre todos os teus “tus”.
A palavra-chave é dispersão. Um espaço, silencioso… e disperso.