Não é nada

11 Abril 2008

(pelo contrário, é muita coisa)

Sobre os olhares turvados pelo álcool canibalizei a tua existência. Sorvi o óleo que inspirava os teus movimentos e devorei numa dentada a tua aura de farinha. No chão sobraram um par de migalhas – não por muito tempo, adivinham as asas dos pombos. Era de noite.

Que cenário tão terrivelmente burlesco, tão antipaticamente melancólico: nós os dois, deitados na cama, eu de barriga cheia e tu de olhos vazios. Vazios de quê? – Perguntaram-me os movimentos das tuas pálpebras – Que vazio é esse que cai como neve nos teus gestos animados, que disseca todos os teus movimentos numa mistela venenosa? Porquê que entre nós se distende um nada pensante, e porquê que as palavras ausentes sambam nos nossos cérebros mas não nas nossas línguas? – Se as tuas pálpebras falassem, será que eu compreendia? Ou nasceriam dos seus versos apenas mais discórdias, mais incompreensão?

As lascas de mal-entendidos quebradas em silêncio são menores do que as paredes que as palavras erguem. O espaço que elas conquistam, perfumando com o seu odor ácido as nossas peles, impõe-se como uma necessidade, dizem-me. Talvez o espaço entre mim e ti não seja tão grande como o espaço entre todos os teus “tus”.

A palavra-chave é dispersão. Um espaço, silencioso… e disperso.

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